Capítulo IX · Letra I
A Cidade dos Fantasmas
ncapaz de seguir, Atreyu chega a uma cidade abandonada e encontra o lobisomem Gmork, que revela o que acontece com quem cai no Nada.
A cidade abandonada
Sem o AURYN e sem Falkor, Atreyu caminha até chegar a uma cidade estranha: a Cidade dos Fantasmas, Spukstadt no original. É um lugar sombrio, de ruas vazias e casas em ruínas, onde não parece haver ninguém. O silêncio é total.
Vagando pelas ruas, Atreyu encontra uma criatura acorrentada num canto escuro. É um lobo enorme, de pelo negro, magro de fome e quase sem forças. É Gmork, um lobisomem.
A conversa
Gmork e Atreyu conversam no escuro. Nenhum dos dois sabe exatamente quem o outro é. Gmork, que está morrendo, não tem pressa e parece disposto a falar. E o que ele conta é a revelação mais sombria do livro.
Gmork explica que é um ser sem mundo. Pode transitar entre Fantasia e o mundo humano, mas não pertence a nenhum dos dois. Por isso sabe coisas que os habitantes de Fantasia ignoram.
Uma delas é o destino dos que caem no Nada. Eles não desaparecem simplesmente. Vão parar no mundo humano, transformados em mentiras: ilusões, delírios, ideias falsas que fazem os humanos acreditar no que não é verdade. Quanto mais mentiras há entre os humanos, menos eles imaginam. E quanto menos imaginam, mais o Nada cresce em Fantasia.
O poder por trás do Nada
Gmork vai além. Diz que serve a um poder que deseja exatamente isso, porque gente cheia de mentiras e sem imaginação é fácil de controlar. Ele próprio foi enviado com uma missão: encontrar e matar o menino que estaria procurando um salvador para Fantasia.
Atreyu, então, revela quem é. Ele é justamente o menino que Gmork deveria matar.
A morte de Gmork
Gmork já não tem forças para atacar. Morre ali mesmo, acorrentado. Mas, num último gesto, crava os dentes na perna de Atreyu. Mesmo morto, a mandíbula não se abre, e Atreyu fica preso ao cadáver do lobo, sem conseguir se soltar, enquanto o Nada se aproxima da cidade.
Por que o capítulo importa
O capítulo IX é o mais filosófico da primeira metade. É aqui que o livro diz, pela boca de um vilão, o que realmente está em jogo: a imaginação não é um luxo, mas uma defesa contra a manipulação. Um mundo sem fantasia é um mundo mais fácil de enganar.
Gmork também é um vilão diferente. Não quer destruir por prazer. Ele está do lado de quem lucra com o vazio. Muitos leitores adultos reconhecem nessa conversa uma crítica que vai muito além de um livro infantil.
No conjunto do livro
Na estrutura da primeira metade, este é o capítulo da explicação. Os capítulos anteriores mostraram o Nada de fora, como um vazio que apaga paisagens. Gmork mostra o Nada por dentro: de onde vem, para onde leva e a quem interessa. Depois desta conversa, o leitor entende que salvar Fantasia não é só uma questão de encontrar uma cura mágica, mas de reverter algo que acontece no mundo humano.
Detalhes que passam despercebidos
- Gmork não reconhece Atreyu porque Atreyu perdeu o AURYN. Sem o medalhão, ele é um menino qualquer.
- A cena é uma conversa, não uma luta. O confronto mais importante do livro é feito de palavras.
Com Bastian, no sótão
Bastian fica perturbado com a ideia de que os seres de Fantasia viram mentiras no mundo humano. Ele se pergunta quantas mentiras já ouviu e em quantas acreditou. Pela primeira vez, a história parece falar diretamente sobre o mundo de onde ele lê.