Capítulo XVIII · Letra R
Os Acharis
ios de lágrimas de prata vêm dos Acharis, as criaturas mais tristes de Fantasia. Bastian deseja que sejam felizes, e o resultado sai pela culatra.
As criaturas que choram
Bastian descobre a existência dos Acharis. São criaturas que se consideram as mais feias de toda Fantasia. Por vergonha da própria aparência, vivem escondidas, e choram o tempo todo.
As lágrimas dos Acharis têm um valor enorme: formam um rio de prata. É dessa prata que os habitantes de Amargánth constroem sua cidade e fazem seus objetos. A beleza de Amargánth depende, portanto, da tristeza permanente dos Acharis.
A compaixão de Bastian
Bastian sente pena dos Acharis. É um sentimento genuíno: ele mesmo sabe o que é ser considerado feio e passar a vida envergonhado. Decide ajudá-los do único jeito que conhece: com um desejo.
Ele deseja que os Acharis deixem de ser tristes e feios. O AURYN realiza o desejo.
Os Shlamoofs
Os Acharis se transformam em outras criaturas: os Shlamoofs. Eles são o oposto do que eram. Leves, alegres, brincalhões, vivem rindo e voando de um lado para o outro. Não carregam mais tristeza nenhuma.
Mas também não carregam mais nada. Os Shlamoofs são inconsequentes, barulhentos e irritantes. Não se importam com nada nem com ninguém. Fazem bagunça por onde passam e não demonstram nenhuma gratidão a Bastian. Pelo contrário: com o tempo, cobram dele que desfaça a mudança, porque sentem falta de ter algum sentido.
O rio seco
E há uma consequência maior. Sem as lágrimas dos Acharis, o rio de prata seca. Amargánth perde a fonte da sua prata. O desejo de Bastian, feito por bondade, atinge uma cidade inteira.
A lição
O capítulo XVIII é um dos mais claros do livro sobre os limites dos desejos. Bastian não agiu por vaidade, como no caso do dragão de Hynreck. Agiu por compaixão. Mesmo assim, causou estragos. O problema é que ele mudou o mundo sem entender como o mundo funcionava.
Ende sugere que não basta ter boas intenções e poder. É preciso compreender aquilo que se quer mudar. Tirar a tristeza dos Acharis parecia um gesto puro, mas apagou também o que eles tinham de valioso, e o que outros dependiam deles.
No conjunto do livro
Na estrutura da segunda metade, o capítulo XVIII fecha a passagem por Amargánth e completa um padrão de três desejos com efeitos colaterais: Perelín, que cresceu sem controle; o dragão de Hynreck; e agora os Acharis. A cada vez, os estragos atingem mais gente.
Detalhes que passam despercebidos
- A história dos Acharis é um espelho da história de Bastian. Ele também foi transformado de “feio e triste” em “belo e feliz” pelos desejos, e também está perdendo algo essencial no processo.
- Os Shlamoofs mostram que felicidade forçada, sem profundidade, não é felicidade.
- A relação entre a beleza de Amargánth e o sofrimento dos Acharis é uma das ideias mais incômodas do livro: muitas coisas bonitas dependem de dores que ninguém vê.
Com os amigos
Atreyu e Falkor assistem a mais esse desejo com preocupação crescente. Atreyu começa a desconfiar seriamente de que o AURYN está fazendo mal a Bastian. Nos capítulos seguintes, essa desconfiança vai se transformar em conflito.