Capítulo VI · Letra F
Os três portões mágicos
rente a frente com as esfinges, o espelho e o portão sem chave, Atreyu enfrenta as três provas do Oráculo do Sul. No espelho, ele vê Bastian.
O Grande Portão dos Enigmas
Recuperado, Atreyu se despede dos gnomos e caminha até o primeiro portão do Oráculo do Sul. Ali estão as duas esfinges, imensas, sentadas uma de frente para a outra. Seus olhares se cruzam no meio do caminho. Quem passa por ali pode ser paralisado para sempre, preso entre os dois olhares.
Engywook já disse que não existe regra. Atreyu não tem como provar seu valor nem como enganar as esfinges. Ele só pode caminhar e torcer. Ele caminha. As esfinges fecham os olhos, e Atreyu passa. O livro não explica por quê.
O Portão do Espelho Mágico
O segundo portão é um grande espelho. Mas ele não reflete a aparência de quem se coloca diante dele: mostra o verdadeiro eu de cada um. Engywook conta que muitos viajantes fugiram aterrorizados do que viram ali, porque não suportaram encarar quem realmente eram.
Atreyu olha no espelho e vê algo que não entende: um menino gordo e pálido, sentado num sótão escuro, enrolado em cobertores, com um livro nas mãos. É Bastian.
Atreyu não sabe quem é aquele menino. Mas o leitor sabe. E Bastian, no sótão, também sabe, e leva um susto enorme. É o momento em que a fronteira entre os dois mundos fica mais fina do que nunca.
O Portão Sem Chave
O terceiro portão é uma porta que não pode ser aberta. Não tem fechadura, nem trinco, nem maçaneta. Não adianta empurrar, nem usar força, nem astúcia. Engywook explicou o segredo: a porta só se abre para quem deixa de querer entrar.
É uma prova difícil para alguém tão determinado quanto Atreyu. Ele precisa abrir mão da própria vontade, esvaziar o desejo de atravessar. Quando consegue, a porta se abre, e ele chega ao lugar onde vive Uyulala.
O que os portões ensinam
Os três portões formam uma sequência de provas que nada têm de heroicas no sentido comum. A primeira exige aceitar o acaso; a segunda, encarar a verdade sobre si mesmo; a terceira, abrir mão do próprio desejo. São lições que Atreyu aprende aqui e que Bastian vai precisar aprender, com muito mais sofrimento, na segunda metade do livro.
O portão do espelho, em especial, é uma das imagens mais famosas da história. Ele mostra que, desde o começo, Atreyu e Bastian estão ligados: o verdadeiro eu do herói de Fantasia é um menino comum do mundo humano.
No conjunto do livro
Na estrutura do livro, o capítulo VI é o ponto em que as duas histórias quase se tocam. Até aqui, Bastian acompanhava Atreyu de fora, como qualquer leitor. A partir do espelho, Atreyu, sem saber, viu Bastian. A ligação entre os dois deixa de ser só emocional e passa a ser parte da trama, e vai crescer a cada capítulo até o fim da primeira metade.
Com Bastian, no sótão
Bastian fica abalado ao se ver descrito no livro. Tenta se convencer de que é coincidência, de que tantos meninos se parecem com ele. Mas a dúvida já se instalou. Ele começa a suspeitar que a história não é só uma história.