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História Sem Fim

Bastidores · Mundo humano

Michael Ende contra o filme

Também conhecido como: Ende contra o filme · Briga de Ende com o filme

Por que o autor de A História Sem Fim detestou a adaptação de 1984, pediu para tirar seu nome dos créditos e foi à Justiça.

A relação entre Michael Ende e o filme A História Sem Fim, de 1984, é um dos casos mais conhecidos de um autor que se volta contra a adaptação da própria obra. Ende não só criticou o filme como tentou impedir que ele saísse com seu nome. Entender essa briga ajuda a entender o que o livro realmente queria dizer.

A venda dos direitos

Depois do sucesso do livro, os direitos de adaptação para o cinema foram vendidos e o projeto foi assumido pelo produtor Bernd Eichinger, da Neue Constantin Film, com direção de Wolfgang Petersen. A ideia era fazer uma superprodução internacional, falada em inglês, capaz de competir com os grandes filmes de fantasia de Hollywood.

No começo, Ende participou das conversas sobre o roteiro. Ele tinha ideias muito claras sobre o que a história significava e esperava que o filme respeitasse isso. Com o tempo, porém, o roteiro foi sendo reescrito, e a versão final se afastou do que ele defendia.

O que ele criticava

As objeções de Ende iam além de cortes de cenas. Ele achava que o filme tinha entendido a história ao contrário. Entre os pontos que mais o incomodavam:

  • O corte da segunda metade. O filme termina quando Bastian entra em Fantasia. Para Ende, a primeira metade era só a preparação: o sentido do livro está no que Bastian faz com o poder dos desejos, em como se perde e em como volta. Sem isso, a história vira uma aventura comum.
  • O final de vingança. O filme termina com Bastian voando em Falkor pelo mundo real e assustando os colegas que o maltratavam. Ende via nisso o oposto da mensagem do livro. No romance, os desejos movidos por vaidade e ressentimento são justamente o que quase destroem Bastian.
  • O tom comercial. Ende reclamava que o filme apostava em efeitos especiais, criaturas fofas e sentimentalismo fácil. Uma frase muito citada, atribuída a ele em entrevistas da época, descreve o resultado como um melodrama gigantesco de kitsch, comércio, pelúcia e plástico.
  • O visual de Fantasia. Para ele, o filme mostrava um reino de cenário e borracha, quando o livro pedia algo que só a imaginação do leitor poderia completar.

O processo

Quando viu a versão final, Ende pediu que seu nome fosse retirado dos créditos e tentou na Justiça impedir o lançamento do filme da forma como estava. Ele perdeu a ação. O filme estreou em 1984, foi um sucesso de bilheteria na Alemanha e no exterior e acabou sendo, para milhões de pessoas, a versão definitiva da história.

Para Ende, isso foi especialmente amargo. Um livro sobre o perigo de trocar a imaginação por produtos prontos tinha virado, ele próprio, um produto pronto.

E as sequências?

As sequências de 1990 e 1994 foram feitas sem a participação de Ende, que morreu em 1995. A segunda tenta aproveitar elementos da segunda metade do livro, como Xayide e a perda das lembranças, mas reorganiza tudo numa história nova. A terceira inventa uma trama sem relação com o romance.

O outro lado

É justo dizer que o filme tem muitos defensores, e não só por nostalgia. Ele preserva cenas importantes do livro com bastante fidelidade, como a morte de Artax, a conversa com Morla e o discurso de Gmork sobre o Nada. A direção de arte e os efeitos práticos continuam impressionantes, e a trilha sonora marcou uma geração.

Também é verdade que o filme levou milhões de pessoas ao livro. Muitos leitores, inclusive no Brasil, só descobriram o romance porque viram o filme na infância e quiseram saber o que vinha depois.

O que fica dessa briga

A briga entre Ende e o filme é, no fundo, uma discussão sobre o que a história significa. Para o filme, A História Sem Fim é a aventura de um menino que salva um mundo mágico. Para o livro, é a história de um menino que quase se perde nesse mundo e precisa aprender a voltar.

Quem conhece as duas versões pode decidir por si mesmo. Mas vale a pena ler o livro sabendo que o próprio autor considerava a segunda metade, a que o filme deixou de fora, o coração da obra.

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