O Livro · Os dois mundos
O livro A História Sem Fim
Também conhecido como: Die unendliche Geschichte · The Neverending Story
Enredo, estrutura e personagens do romance de Michael Ende, de 1979, que começa numa livraria e termina dentro do próprio livro.
A História Sem Fim (no original alemão, Die unendliche Geschichte) é um romance de Michael Ende publicado em 1979 pela editora Thienemann, de Stuttgart. É um livro sobre ler um livro. Quem lê acompanha Bastian, um menino que lê uma história, e aos poucos percebe que essa história também está lendo o menino.
Ele virou um dos livros alemães mais conhecidos do século 20 e foi traduzido para dezenas de línguas. No Brasil, muita gente só conhece a história pelo filme de 1984, que cobre apenas a primeira metade. Quem lê o livro descobre que o filme parou justamente onde a parte mais estranha e mais adulta começava.
Do que trata a história
Bastian Baltasar Bux é um menino solitário. A mãe morreu há pouco tempo, o pai se fechou na própria tristeza e, na escola, Bastian é alvo de piadas por ser gordo, desajeitado e sonhador. Numa manhã chuvosa, fugindo de colegas, ele entra na livraria de antiguidades do senhor Karl Konrad Koreander. Lá, vê um livro encadernado em seda cor de cobre, com duas serpentes entrelaçadas na capa. O título é A História Sem Fim.
Bastian rouba o livro, desiste de ir à aula e se esconde no sótão do colégio para ler. A partir daí, o romance alterna dois planos:
- O mundo de Bastian, no sótão frio, onde ele lê, sente fome, tem medo e reage ao que lê.
- Fantasia, o reino descrito no livro que Bastian segura. Lá, uma força chamada o Nada está apagando tudo, e a soberana do reino, a Imperatriz Criança, está mortalmente doente.
A primeira metade: a busca de Atreyu
Para descobrir a cura da Imperatriz, o conselho da Torre de Marfim confia uma missão a um menino da idade de Bastian: Atreyu, um caçador do povo dos Peles-Verdes. Ele recebe o AURYN, o medalhão da Imperatriz, que o protege e o guia, e sai pela vastidão de Fantasia.
Na viagem, Atreyu perde o cavalo Artax nos Pântanos da Tristeza, consulta a velha tartaruga Morla, escapa da criatura Ygramul, conhece o dragão da sorte Falkor (Fuchur, no livro), atravessa os portões do Oráculo do Sul e ouve a voz de Uyulala. A resposta que ele recebe é desconcertante: só uma criança humana, vinda de fora de Fantasia, pode salvar a Imperatriz, dando a ela um nome novo.
Enquanto isso, Bastian percebe que ele mesmo é essa criança. Os personagens parecem ouvir seus gritos, e o livro descreve exatamente o que ele está fazendo no sótão. Ele resiste, porque acha que não é digno de entrar numa história tão bonita. O desfecho dessa primeira parte é uma das ideias mais famosas do romance, e vale a pena descobrir lendo.
A segunda metade: a jornada de Bastian
Na metade do livro, Bastian entra em Fantasia. Ali tudo muda. Ele recebe o AURYN e descobre que pode transformar seus desejos em realidade. No verso do medalhão está escrito, em alemão, TU WAS DU WILLST: “faça o que quiseres”.
Bastian cria florestas, desertos e criaturas. Fica bonito, forte e corajoso, tudo o que nunca foi. Mas cada desejo realizado apaga uma lembrança do mundo real. Pouco a pouco ele esquece a escola, a mãe, o pai e, por fim, o próprio nome. Influenciado pela feiticeira Xayide, chega a querer se tornar imperador de Fantasia e enfrenta o próprio amigo Atreyu.
Essa segunda metade é mais sombria e mais filosófica. Ela fala de vaidade, de poder e da diferença entre fazer o que se tem vontade e descobrir o que se quer de verdade. É também a parte que o cinema mais ignorou.
Como o livro é organizado
O romance tem 26 capítulos, e cada um começa com uma letra do alfabeto, em ordem: o primeiro capítulo começa com A, o segundo com B, e assim até o Z. Na edição original, cada letra inicial é uma ilustração decorada, feita pela artista Roswitha Quadflieg. Antes do capítulo I há uma abertura que se passa na livraria de Koreander.
A edição alemã também foi impressa em duas cores: o que acontece no mundo de Bastian aparece em vermelho, e o que acontece em Fantasia aparece em verde. Quando Bastian entra em Fantasia, o próprio texto muda de cor junto com ele. Explicamos isso em detalhes no artigo sobre a edição em duas cores.
Outro recurso marcante é uma frase que se repete ao longo do livro: sempre que um personagem secundário ou uma aventura fica para trás, o narrador avisa que aquilo “é outra história, e será contada outra vez”. É assim que Ende sugere que Fantasia é infinita e que cada personagem carrega uma história própria, que nunca será contada no livro.
Por que ele é diferente de um livro infantil comum
A História Sem Fim costuma ficar na estante infantojuvenil, mas não é um livro simples. Alguns pontos ajudam a entender por que ele é lido por adultos até hoje:
- O leitor está dentro da história. Bastian lê o que nós lemos, e às vezes reage do jeito que nós reagiríamos. O livro brinca o tempo todo com essa fronteira.
- A fantasia não é fuga. Ende não trata Fantasia como um lugar para escapar da realidade, mas como um lugar de onde se volta transformado. Quem entra em Fantasia e não volta se perde.
- O herói erra. Na segunda metade, Bastian se torna arrogante, mente para si mesmo e machuca quem gosta dele. O livro não esconde isso.
- O fim é um recomeço. O título é literal: a história não termina, porque cada leitor a continua do seu jeito.
Onde continuar lendo
Para seguir a história capítulo por capítulo, com o que o filme de 1984 fez com cada um, vá para o Códice A–Z. Para conhecer o autor, leia o perfil de Michael Ende. E, se quiser entender as grandes ideias do livro, veja o artigo sobre os temas de A História Sem Fim.