O Livro · Os dois mundos
A edição em duas cores
Também conhecido como: Duas tintas · Edição bicolor
Por que o livro original de A História Sem Fim foi impresso em vermelho e verde, e como as cores separam o mundo de Bastian e Fantasia.
Quem abre a edição alemã original de A História Sem Fim percebe logo uma coisa incomum: o texto não é preto. Algumas páginas estão impressas em vermelho, outras em verde. Não é enfeite. A cor diz ao leitor em qual dos dois mundos da história ele está.
A regra das cores
A regra é simples:
- Vermelho é o mundo humano. É a cor das cenas de Bastian na livraria de Koreander, no sótão da escola, com frio e com fome, lendo o livro roubado.
- Verde é Fantasia. É a cor da Torre de Marfim, da busca de Atreyu, dos dragões, das esfinges e de tudo o que existe dentro do livro que Bastian está lendo.
Na primeira metade do romance, as cores se alternam o tempo todo. Um trecho verde narra Atreyu nos Pântanos da Tristeza; logo depois, um trecho vermelho mostra Bastian no sótão, assustado com o que acabou de ler. O leitor real, com o livro nas mãos, passa a fazer o mesmo movimento que Bastian: sai do próprio mundo e entra em outro.
Quando as cores se misturam
A grande virada do livro acontece quando Bastian entra em Fantasia. A partir desse ponto, o menino não está mais “do lado de fora” lendo, e o texto passa a ser quase todo verde por muitos capítulos. A cor confirma, de um jeito silencioso, que ele deixou o mundo de onde veio. Quando ele finalmente volta para casa, no fim do livro, o vermelho volta junto.
É por isso que tanta gente diz que a edição bicolor não é só bonita, mas parte da narrativa. Uma edição toda em preto conta a mesma história com as mesmas palavras, mas perde esse aviso visual de que a fronteira entre leitor e livro foi atravessada.
Por que funciona tão bem
O efeito das cores é prático antes de ser simbólico. Em muitos livros com duas linhas narrativas, o leitor precisa de alguns parágrafos para perceber que a cena mudou. Aqui, a mudança é instantânea: basta olhar a página. Isso permite a Ende cortar de um mundo para o outro no meio de um capítulo, às vezes por uma única frase, sem confundir ninguém.
E há o efeito emocional. O vermelho das cenas de Bastian é a cor do sótão frio, da fome e da solidão. O verde de Fantasia é a cor das planícies, das florestas e da esperança. Quando os dois se alternam rápido, nos momentos de tensão, o leitor sente fisicamente a aflição de Bastian, dividido entre ficar quieto e se entregar à história.
O livro dentro do livro
Há ainda uma camada a mais. Dentro da história, Bastian lê um volume encadernado em seda cor de cobre, com duas serpentes que mordem a cauda uma da outra formando um oval na capa. A edição real foi pensada para se parecer com esse objeto. Quem segura o livro físico está, de certa forma, segurando o mesmo livro que Bastian roubou. Ende queria que o leitor sentisse que poderia ser o próximo a ser chamado para dentro de Fantasia.
As letras capitulares
Além das cores, a edição original tem outro detalhe famoso: os 26 capítulos começam cada um com uma letra do alfabeto, de A a Z, e cada letra inicial é uma pequena ilustração. Essas capitulares foram desenhadas pela artista Roswitha Quadflieg. Cada uma traz elementos do capítulo que ela abre, como uma criatura, um objeto ou uma paisagem.
O resultado é um livro que funciona quase como um abecedário de Fantasia. Este portal usa essa ideia no Códice A–Z, onde cada capítulo tem a sua letra.
E as outras edições?
Nem toda edição reproduz as cores. Ao longo das décadas, o livro saiu em muitos países e formatos, e muitas versões, sobretudo as de bolso, foram impressas só em preto para baratear a produção. Algumas edições trocam as cores por tipos de letra diferentes, ou usam outros tons para separar os dois mundos.
Se você tem acesso a uma edição em duas cores, vale a pena ler nela pelo menos uma vez. É o jeito mais próximo de ler o livro como Michael Ende o imaginou. Se o seu exemplar é todo em preto, nada se perde da história, mas preste atenção nas passagens em que Bastian interrompe a leitura: são as que, no original, estariam em vermelho.
Como este portal usa as cores
O visual do História Sem Fim segue a mesma regra do livro:
- Cobre/vermelho marca o que pertence ao mundo humano: Bastian, o pai, a livraria de Koreander, os bastidores do filme.
- Verde marca o que pertence a Fantasia: Atreyu, Falkor, a Imperatriz Criança, os lugares e as criaturas do reino.
Quando um personagem ou assunto circula pelos dois mundos, usamos uma cor neutra. Já a informação de onde algo aparece (no livro, no filme de 1984, nas sequências ou nas séries) fica nos selos de origem de cada verbete, e não nas cores. Assim, a cor continua significando a mesma coisa que significava para Ende: de que lado da fronteira você está.
Para saber mais
- Leia a visão geral do livro para entender a história completa.
- Veja os temas de A História Sem Fim, entre eles a relação entre leitor e livro.
- Conheça o autor no perfil de Michael Ende.